quarta-feira, abril 15

Após uma paralisação realizada nesta terça-feira (14), os estudantes da USP (Universidade de São Paulo) começaram a votar pela realização de uma greve. Os alunos da Each (Escola de Artes, Ciências e Humanidades) e da Faud (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design) já aprovaram o boicote às aulas.

Numa assembleia convocada pelo DCE (Diretório Central dos Estudantes) para as 18h, na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), a mobilização será discutida e organizada. Nos próximos dias, cada unidade da universidade deve realizar sua própria votação sobre a adesão à greve.

Entre as principais reivindicações dos estudantes estão melhores condições de permanência, como o aumento no valor das bolsas. Eles também denunciam a má qualidade dos serviços oferecidos nos restaurantes universitários.

Nas últimas semanas, houve denúncias de refeições estragadas e com larvas sendo servidas aos alunos, especialmente na Faculdade de Direito. Os restaurantes são administrados por empresas terceirizadas.

Em nota, o DCE afirmou: “Essa situação não acontece do nada. Nos inspiramos nos funcionários, que lutam por reajuste salarial e isonomia”. A categoria dos servidores técnico-administrativos da USP também deflagrou greve nesta terça-feira (14).

O motivo da paralisação dos servidores é um bônus aprovado para os professores da instituição, chamado de Gace (Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas). A medida foi aprovada pelo Conselho Universitário em 31 de março.

Ela cria um pagamento extra de R$ 4.500 para docentes que assumirem projetos considerados estratégicos, como oferta de disciplinas em inglês e ações de extensão. A proposta era uma promessa de campanha do atual reitor, Aluisio Segurado, que assumiu o cargo este ano.

O Gace terá um impacto anual de R$ 238,44 milhões nos cofres da universidade. O salário inicial de um professor-doutor na USP é de R$ 16.353,01. A bonificação representa um acréscimo de 27,5% nesse valor.

Foi essa gratificação que também motivou o início do movimento dos estudantes. Eles realizaram uma paralisação nesta terça, com participação de mais de 100 cursos, e agora avaliam se entram em greve junto com os servidores.

O DCE declarou: “Nos próximos dias, todos os cursos e campi devem se reunir e discutir se farão greve nos seus locais ou não. De nossa parte, achamos que a mobilização é irreversível e só saímos com conquistas concretas”.

Posicionamento da Universidade

Em nota publicada após a aprovação do Gace, o reitor Aluisio Segurado disse que o objetivo é valorizar as atividades acadêmicas e a carreira docente. A medida visa o reconhecimento e a retenção de talentos, além do estímulo à excelência acadêmica.

Segurado também afirmou que a universidade tem projetos para os servidores técnico-administrativos. Está em análise a viabilidade econômica e de integração ao plano de carreira de uma proposta de valorização para esse grupo.

A gestão anunciou o reajuste de benefícios para os servidores a partir de abril deste ano. O vale-alimentação passa de R$ 1.950 para R$ 2.050. O vale-refeição será aumentado de R$ 45 para R$ 65 por dia. O auxílio-saúde terá reajuste de 14,3%, com pagamento em maio de 2026.

A reportagem procurou a reitoria novamente na manhã desta quarta-feira. Não houve nova manifestação até a publicação deste texto.

Sobre a permanência estudantil, a USP informou que, em 2023, estabeleceu uma política de suporte que inclui bolsas e auxílios. Os alunos são selecionados por um questionário que considera situações de vulnerabilidade socioeconômica.

Entre 2023 e 2025, 41,7% dos contemplados eram de famílias com renda menor que meio salário mínimo paulista, que é de R$ 1.804.

Em relação às denúncias sobre os restaurantes, a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento informou que equipes técnicas estão visitando as unidades para apurar os fatos e que medidas administrativas estão sendo tomadas.

Histórico de mobilizações

Desde o início dos anos 2000, a USP registra uma sequência de greves com pautas recorrentes. As principais demandas são reajuste salarial, financiamento da universidade e políticas de permanência estudantil.

Entre os episódios marcantes está a longa paralisação da FFLCH em 2002, motivada pela falta de professores. A ocupação da reitoria em 2007, em defesa da autonomia universitária, também foi significativa.

A greve de 2014 foi a maior da história da instituição, durando 116 dias, em meio a uma crise financeira. Nos anos seguintes, novas paralisações mantiveram o foco na recomposição salarial e nas condições de ensino.

Mais recentemente, em 2023, o déficit no quadro de professores motivou a última greve enfrentada pela Universidade de São Paulo. O movimento atual se insere nesse contexto histórico de lutas por melhorias na universidade pública.

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Cristina Leroy Silva

Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados