quarta-feira, maio 6

O STF (Supremo Tribunal Federal) tende a validar a redução de penas para condenados do 8 de Janeiro e da trama golpista, mas com uma série de recados sobre a necessidade de combater com rigor qualquer novo ataque à democracia.

Parte dos ministros discorda do PL da Dosimetria por entender que a medida significa um incentivo a novos atos antidemocráticos. Mesmo entre esses magistrados, há consenso de que a definição das penas é uma prerrogativa do Congresso Nacional.

A leitura desse grupo é de que a severidade das punições era uma espécie de vacina contra um novo atentado às sedes dos três Poderes. Em ano eleitoral, a área de segurança do Supremo não despreza esse risco.

Ao mesmo tempo, os magistrados avaliam que, se as punições foram altas, isso se deve ao próprio Congresso. A dosimetria foi calculada com base nas penalidades previstas em lei, definidas anteriormente pelo Legislativo.

O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai, disse que, assim que a lei for promulgada, o partido vai entrar com uma ação no STF pedindo que a norma seja declarada inconstitucional. A judicialização já era esperada pelos magistrados.

O processo será sorteado a um ministro relator. Ele vai avaliar se concede liminar para suspender temporariamente a lei ou adota rito abreviado para julgamento de mérito direto no colegiado.

Segundo um ministro do STF e interlocutores de outros quatro, o cenário que se desenha é de uma maioria pela manutenção da lei, por respeito ao princípio da separação dos Poderes.

Nos gabinetes dos magistrados, houve comentários sobre uma possível afronta à impessoalidade, já que o projeto avançou para beneficiar um determinado grupo de pessoas. Porém, o momento institucional do Judiciário é considerado delicado para interpretações mais ousadas.

A ala que prega um Supremo mais autocontido em relação ao Congresso deve votar pela constitucionalidade da lei. É o caso de André Mendonça, Kassio Nunes Marques, Luiz Fux e Edson Fachin.

O decano, Gilmar Mendes, declarou que o Congresso tem atribuição para reduzir as penas. Ele ponderou que a situação seria diferente se a deliberação fosse por conceder anistia ampla, o que seria inconstitucional.

Flávio Dino também se posicionou. Ele disse que o Congresso pode mudar a lei penal, mas espera que não o faça, pois considera a lei vigente boa.

Alexandre de Moraes, relator das investigações sobre atos antidemocráticos, afirmou que atenuar as penas seria um recado de tolerância a novos flertes contra a democracia. No entanto, ele sinalizou que, se essa foi a opção do Congresso, cabe a ele aplicar as mudanças.

Moraes negou o pedido feito pela cabeleireira Débora Rodrigues porque a lei ainda não está em vigor. Na quinta-feira (30), o Congresso derrubou o veto de Lula ao projeto, mas a norma ainda não foi promulgada.

Moraes foi um dos ministros a manter diálogo com parlamentares sobre o projeto, dando sugestões para a redação do texto. Assessores avaliam que a vigência da lei pode ajudar a arrefecer as tensões e preserva o poder do STF na execução das penas.

A aplicação das novas regras ficará a cargo de Moraes, que vai analisar os requerimentos das defesas caso a caso. Advogados de condenados já estão preparando os pedidos de recálculo.

Moraes deve deixar claro no julgamento da ação do PT que não vai recuar no enfrentamento a atos antidemocráticos. As investigações sobre milícias digitais vão prosseguir.

De acordo com relatório de 26 de abril, 1.402 réus foram responsabilizados pelo 8 de Janeiro e pela trama golpista. Desses, 850 foram condenados a penas privativas de liberdade, e 419 tiveram pena convertida em serviços comunitários.

A penalidade mínima foi de três meses de prisão e a máxima, de 27 anos e três meses, caso do ex-presidente Jair Bolsonaro. A maior parte dos réus, 404 casos, foi condenada a um ano.

Com a nova lei, a pena de Bolsonaro pode ser reduzida para 22 anos e um mês, com progressão de regime mais rápida. Atualmente, ele teria cinco anos e 11 meses em regime fechado, prazo que pode diminuir para três anos e três meses.

Share.
Cristina Leroy Silva

Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados