quarta-feira, abril 22

Eu estava terminando um copo de primitivo numa enoteca em Bari, olhando para o mar Adriático, quando meu telefone começou a vibrar sem parar. Amigas de São Paulo, jornalistas do Rio, uma ex-assessora que eu não falava há dois anos, todo mundo mandava o mesmo vídeo com a mesma pergunta: “Kátia, você viu isso?” Vi. E o primitivo quase foi para o chão.

Na final do BBB 26, exibida ontem à noite, a Globo editou as cenas em que Pedro Henrique Espindola aparecia e substituiu sua imagem por um dinossauro. Em três cortes distintos, o ex-participante, que deixou o programa após tentar beijar Jordana Morais à força, teve sua silhueta trocada pela de Edilson Capetinha, apareceu brevemente numa conversa com Juliano Floss e Brigido Neto e, na terceira aparição, virou réptil de vez. A emissora não confirmou a decisão editorial, mas as imagens falam sozinhas.

Nas redes sociais, o Brasil entrou em colapso coletivo. “Eles fingindo que ele nunca existiu”, reagiu uma usuária no X. “A Globo vai fingir que o Pedro nunca participou do BBB”, escreveu o perfil Zebrinha. O Ryan virou meme instantâneo ao notar a ironia da silhueta escolhida: “Colocaram o falecido Pedro e revelando o Capeta.” A criatividade da direção de edição foi elogiada até por quem nunca torceu pelo rapaz.

A decisão é tecnicamente inédita para uma final do BBB e carrega um recado institucional preciso: Pedro Henrique não é apenas um nome que saiu do jogo, é um capítulo que a emissora quer selar antes de virar a página. O uso do dinossauro não foi aleatório, é humor com mensagem embutida, o tipo de escolha criativa que comunica sem precisar de nota oficial. A Globo não precisou explicar nada porque a imagem explicou tudo.

Terminei o primitivo, pedi outro e fiquei olhando para o Adriático pensando no seguinte: o homem tentou apagar uma mulher de um momento e acabou sendo apagado de uma final inteira e transformado em Godzilla. O universo tem um humor que nenhum roteirista conseguiria escrever melhor.

A substituição da imagem do ex-participante por elementos como um dinossauro e um personagem como Capetinha gerou amplo debate sobre as práticas editoriais da televisão. A ação da emissora foi interpretada por muitos como uma forma de desassociar o programa da controvérsia envolvendo o participante. Esse tipo de edição, embora incomum em finais, não é totalmente sem precedentes em situações onde há a necessidade de se afastar de figuras envolvidas em incidentes graves.

O caso reacendeu discussões sobre como reality shows lidam com a imagem de participantes após sua saída, especialmente em circunstâncias negativas. A estratégia de usar humor e elementos visuais para transmitir uma posição, sem emitir comunicados formais, foi amplamente observada e comentada por espectadores e críticos. A reação nas redes sociais mostrou como o público consome e reinterpreta essas decisões de produção, transformando-as em parte da narrativa do próprio programa.

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Cristina Leroy Silva

Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados