terça-feira, agosto 18

A Promotoria de Justiça de Santos, no litoral paulista, pediu o arquivamento do último inquérito que investiga as mortes do menino Ryan da Silva Andrade Santos, 4, e do adolescente Gregory Ribeiro Vasconcelos, 17. Nenhum indiciamento ou denúncia foi apresentado contra os policiais militares envolvidos.

Os dois foram mortos por PMs em novembro de 2024. A conclusão do promotor Fábio Perez Fernandez, apresentada à Justiça na última segunda-feira (8), é que os policiais agiram em legítima defesa durante uma troca de tiros com Gregory e outro adolescente, de 15 anos. Sobre o disparo que matou Ryan, o promotor afirmou que o policial não teve intenção de atingi-lo. A perícia apontou que um tiro de espingarda ricocheteou antes de acertar o menino de 4 anos na barriga.

Moradores da rua onde ocorreram as mortes e o adolescente sobrevivente negam que tenha havido troca de tiros. O exame no corpo de Gregory mostrou que ele foi atingido por quatro tiros nas costas, de um total de ao menos sete ferimentos de armas de fogo. A quantidade de disparos e o fato de ter sido atingido por trás são vistos como indícios de desrespeito aos protocolos de operação. A Promotoria, no entanto, entendeu que não há “indícios de excesso, doloso ou culposo, e muito menos de tentativa de execução sumária dos suspeitos”, mas sim de “estrito cumprimento de dever legal”.

A defesa da família de Ryan informou, nesta quarta-feira (10), que entrou com um recurso contra a decisão de arquivamento. O objetivo é “buscar o reconhecimento da prática de crime pelos agentes”. Além disso, a família entrará com uma ação de reparação de danos, pedindo indenização de mais de R$ 1 milhão.

Em nota, os advogados Andrea Lemos, Stefany Bageski Cruz e Iranildo Brasil afirmaram que “vítimas e familiares afirmam categoricamente que os jovens estavam desarmados”. Eles também disseram que a ausência de câmeras “facilitou a manipulação da cena do crime e a suposta forja de armamentos para justificar a ação letal”. Os advogados manifestaram “profunda indignação” com o pedido de arquivamento e argumentaram que “há um confronto inconciliável entre a versão policial e os depoimentos de testemunhas presenciais e do sobrevivente”.

Caso a Promotoria mantenha o pedido de arquivamento, caberá ao Procurador-Geral de Justiça, chefe do Ministério Público de São Paulo, decidir se aceita a argumentação. Depois dessa etapa, a continuidade de uma ação penal se torna improvável. O pedido de arquivamento confirma o entendimento da investigação da Polícia Civil, cujo relatório final afirma que os PMs agiram em legítima defesa e não poderiam prever que a criança seria atingida por uma bala perdida. O Tribunal de Justiça Militar deixou de analisar o caso por entender que poderia se caracterizar um crime doloso contra a vida praticado por PMs.

O caso ocorreu por volta das 20h15 do dia 5 de novembro de 2024. Gregory e um adolescente de 15 anos foram vistos por três PMs da Rocam andando de moto sem capacete. Os policiais seguiram a dupla, que logo depois se deparou com outros três PMs da Força Tática. Os adolescentes foram alvo de ao menos 28 disparos de fuzil, espingarda e pistolas. Ryan, que brincava na rua a cerca de 50 metros de distância, foi atingido por uma bala perdida. O jovem de 15 anos, na garupa da moto, levou dois tiros e sobreviveu.

Os PMs envolvidos não portavam câmeras corporais. Eles foram afastados da atividade operacional, mas já voltaram ao policiamento nas ruas. O disparo que matou Ryan partiu da espingarda calibre 12 do cabo Clovis Damasceno de Carvalho Junior, 42. A perícia indica que o projétil ricocheteou antes de atingir a criança. Damasceno afirmou que fez sete disparos para deter os adolescentes. Em depoimento, os PMs disseram que os tiros foram uma reação a um ataque. O sobrevivente, por outro lado, afirmou que eles estavam desarmados. Duas testemunhas disseram que não houve troca de tiros e que os policiais continuaram atirando quando os adolescentes já estavam caídos no chão.

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Cristina Leroy Silva, autora do portal
Cristina Leroy Silva

Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados

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