O almoxarife Magdo de Moraes Santos, 48, classificou como discriminação a absolvição dos policiais militares Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima pela morte de seu filho. “É revoltante. Não tenho nem palavras. Discriminação por ser pobre e nascido na favela”, afirmou.
Igor Oliveira de Moraes Santos, 24, foi baleado em 10 de julho do ano passado em um imóvel na favela de Paraisópolis, zona sul de São Paulo. Ele estava rendido e com as mãos na cabeça quando foi atingido pelos tiros dos agentes.
Os jurados, cinco homens e duas mulheres, reconheceram os policiais como autores dos disparos, mas votaram pela absolvição da acusação de homicídio qualificado. Durante conversa com a reportagem, o pai de Igor chorou e pediu justiça. “Julgaram meu filho pelo que ele era, de comunidade, pobre, usuário de droga, morador de favela, com passagem pela Fundação Casa”, disse.
Para Magdo, os jurados ignoraram que Igor tinha família e era um ser humano. Ele afirmou que esperava a condenação dos agentes. “Tinha certeza que iam fazer justiça, mas o pensamento dos jurados foi diferente: ‘Já está morto, e os policias têm que voltar para a família deles’”, contou.
O almoxarife, que nasceu e foi criado em Paraisópolis, disse que a comunidade é formada por pessoas de bem. “Uma tremenda covardia. Crueldade. Creio na palavra de Deus que a justiça seja feita. Vou lutar até o fim. Pai que é pai vai até o inferno pelo filho.”
Julgamento
O julgamento terminou na noite de quinta-feira (30), após começar na terça-feira (28) no Fórum da Barra Funda, zona oeste. Os sete jurados responderam aos quesitos do juiz após ouvirem testemunhas e os argumentos das partes.
O júri reconheceu a autoria dos disparos pelos policiais, com base em gravações de câmeras corporais que mostram os tiros no quarto da casa. Em seguida, por maioria, decidiu pela absolvição. Pela lei, os jurados não precisam explicar o voto, apenas responder objetivamente aos quesitos.
A defesa dos policiais afirmou que o júri reconheceu legítima defesa. O advogado João Carlos Campanini disse que as imagens mostravam apenas parte da ação. O Ministério Público recorreu da decisão.
Os advogados Gabriela Amoras, Jonatha Carvalho Matos e Wilson Zaska, que representam a família, também recorreram. Eles classificaram a morte como “execução sumária durante ação policial ilegal” e esperam um novo julgamento.
Os policiais estavam detidos há um ano no Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte. Com a decisão, eles serão soltos.
