segunda-feira, abril 27

Desde a pandemia, a aposentada Clarice Almeida, 72, passou a ver sua coleção de joias de ouro de outra forma. Endividada com cartões de crédito, anéis, pulseiras e correntes viraram uma saída. Em vez de vendê-los, ela penhorou os itens na Caixa Econômica Federal, única instituição do país autorizada a oferecer essa modalidade de crédito.

“Eu estava cheia de dívidas, não conseguia pagar minhas contas. Mas eu sempre tive bastante joia, e uma amiga minha penhora lá na Caixa aqui de Osasco e falou que era uma boa, que o juro era pouco. Penhorei e gostei também, o juro é bem mais baixo mesmo”, disse ela em ligação por vídeo.

O penhor funciona como um empréstimo com garantia. O cliente leva à agência um bem de valor, como joias, pratarias, relógios ou canetas com metais preciosos. Um especialista faz a avaliação. O crédito pode chegar a até 100% do valor da peça, e o dinheiro sai na hora. O cliente paga juros de cerca de 2,19% ao mês, em contratos de até seis meses, que podem ser renovados. Os bens ficam guardados no cofre da Caixa até a quitação da dívida. Se o contrato não for pago ou renovado, os itens vão a leilão.

No último ano, o ouro subiu mais de 60% e renovou recordes históricos. Em janeiro, chegou a US$ 5.600 por onça. “Em reais, o ouro à vista chegou à máxima de R$ 900 por grama”, diz Mauriciano Cavalcante, especialista da Ourominas. Depois, a cotação caiu para US$ 4.712 por onça, afetada pelo conflito no Oriente Médio. “Mas a tendência ainda é de alta a curto prazo, podendo atingir novamente os patamares recordes anteriores”, afirma Cavalcante.

O metal precioso é visto como reserva de valor em momentos de instabilidade. A alta começou no fim de 2022, com a Guerra da Ucrânia. No ano passado, a política comercial do presidente Donald Trump fez o ouro mudar de status. O tarifaço abalou a confiança no dólar e nos títulos americanos. O ouro passou de US$ 3.343 por onça em 1º de abril para o pico de US$ 5.600.

Com o metal mais valorizado, as joias valem mais e a procura pelo penhor disparou. Segundo a Caixa, a carteira da modalidade encerrou 2025 com saldo de R$ 3,2 bilhões, crescimento de 31,24% em relação ao ano anterior. A instituição afirma que a valorização do ouro é o principal motivo.

“Como o ouro subiu bastante, muitos clientes passaram a ter um patrimônio relevante parado nas gavetas de casa”, diz Gustavo Trotta, sócio da Valor Investimentos. “Com isso, o penhor vira uma forma rápida de acessar crédito, usando um ativo valorizado sem precisar vender. A alta do ouro permite que o cliente pegue mais dinheiro com o mesmo bem como garantia.”

Há outro fator: o endividamento das famílias atingiu 80,4% da população, recorde da pesquisa da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). A inadimplência subiu para 29,6% das famílias endividadas, impulsionada pela Selic em 14,75% ao ano. O penhor ganha espaço por ter juros mais baixos que outras linhas. “Ele tende a ser mais barato que as demais linhas tradicionais. O cliente busca o penhor como alternativa competitiva”, diz Trotta.

O penhor não exige análise de crédito minuciosa. O bem dado como garantia é suficiente. “Ele acaba sendo uma porta de entrada para pessoas com nome negativado ou dificuldade de aprovação em outras linhas”, afirma Trotta. Por outro lado, o penhor pode indicar maior endividamento. “Pode ser um sinal de que as famílias estão recorrendo a alternativas para gerar liquidez sem necessariamente entrar em linhas mais visíveis”, completa.

Comparativamente, o juro de 2,19% ao mês do penhor perde para as médias do consignado público (2,11%) e do vinculado ao INSS (1,76%), segundo o Banco Central. Para servidores públicos, Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, diz que o consignado segue como boa opção. “É uma linha vantajosa, já que a parcela é descontada no contracheque e o risco de inadimplência é baixo.” A limitação, avalia ele, é a impossibilidade de renovar o contrato. “Mas o consignado é uma ótima opção porque não depende de o cliente ter o bem, como no penhor.”

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Cristina Leroy Silva

Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados