sexta-feira, junho 5

O Instituto Conhecer Brasil contratou um escritório de advocacia que representou o deputado federal Mário Frias (PL-SP) em quatro ações na Justiça para atuar na execução de um programa com a Prefeitura de São Paulo. O programa prevê a manutenção de pontos públicos de acesso a Wi-Fi em comunidades da periferia da capital paulista.

O advogado recebeu R$ 341,9 mil da ONG sem o detalhamento do serviço prestado, de acordo com prestação de contas obtida pelo Estadão. A contratação foi revelada pelo portal UOL.

O Instituto Conhecer Brasil é presidido por Karina da Gama, dona da Go Up Entertainment, produtora do filme “Dark Horse”, inspirado na vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O roteiro do longa-metragem é assinado por Frias. A Polícia Civil de São Paulo suspeita de confusão patrimonial entre o instituto e a produtora, com possível desvio de dinheiro do contrato público para custear o filme.

Em junho de 2024, a entidade fechou um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalar pontos de wi-fi livre em comunidades de baixa renda. Em dezembro de 2025, o contrato recebeu um aditivo de R$ 49,1 milhões para manutenção dos roteadores já instalados. Com o adicional, os repasses chegarão a R$ 157,1 milhões.

Segundo a prestação de contas, entre julho de 2024 e julho de 2025, foram feitos 12 pagamentos ao escritório Aguilera Martinez. O primeiro repasse foi de R$ 151 mil em julho de 2024, seguido de 11 prestações de R$ 17,3 mil. As despesas são descritas como “prestação de serviços jurídicos”, sem detalhamento.

No mesmo período, o escritório representou Mário Frias em três processos na Justiça Eleitoral e um na Justiça do Estado de São Paulo. Os processos eleitorais tramitam desde abril de 2023, e Aguilera representa o deputado desde novembro daquele ano. O processo na Justiça Estadual foi encerrado em junho de 2024, no mesmo mês em que a ONG assinou o convênio com a Prefeitura.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo negou irregularidades. A gestão classificou os fatos como “ilação irresponsável”, “sem fundamento” e “sem provas”. A administração afirmou que o Instituto Conhecer Brasil foi selecionado por chamamento público que cumpriu as exigências legais.

O Instituto Conhecer Brasil e o advogado Diego Martinez foram procurados, mas não responderam.

Outro advogado contratado com emenda parlamentar

A produtora de “Dark Horse” contratou um outro advogado de Mário Frias com dinheiro de emenda do próprio parlamentar. Em 2024, Frias destinou duas emendas de R$ 1 milhão cada para projetos da ONG de Karina. Os recursos foram repassados em 2025.

Na pasta de Ciência e Tecnologia, o projeto recebeu o nome de “Jovem Empreendedor”. Em fevereiro deste ano, a ONG fez dois repasses a uma empresa do advogado Fabio Lago Meirelles: R$ 30 mil para serviços de contabilidade e R$ 50 mil para serviços jurídicos. De 2022 a 2026, Meirelles defendeu Frias em ao menos nove processos na Justiça.

Contratação de dirigente da própria entidade

A ONG também usou a emenda do parlamentar para contratar o produtor de eventos Marcelo Machado. Ele recebeu R$ 50 mil para serviços de “divulgação” ao projeto “Jovem Empreendedor”. O valor foi transferido para a empresa MM7, da qual Machado é dono.

Machado é dirigente da Academia Nacional de Cultura, outra entidade presidida por Karina. A academia está na mira do Supremo Tribunal Federal por possível destinação de verbas públicas para a produção do filme sobre Bolsonaro. A lei proíbe a contratação de empresas de dirigentes por ONGs, devido ao conflito de interesses. Machado foi procurado, mas não respondeu.

Polícia suspeita de desvios para filme de Bolsonaro

A Polícia Civil de São Paulo investiga o contrato do Instituto Conhecer Brasil por suspeita de desvio de verba pública para financiar o filme sobre Bolsonaro. O inquérito que embasou a operação da última segunda-feira apontou indícios de sobrepreço nos serviços da ONG e suspeitas nas notas fiscais de empresas subcontratadas.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirmou ter colaborado com a investigação e repudiou “ilações de desvios de recursos públicos”, dizendo que o contrato seguiu os princípios de legalidade, transparência e economicidade.

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Cristina Leroy Silva

Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados