terça-feira, agosto 18

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) reforçou sua identidade política ao gravar um vídeo, na quarta-feira (24), criticando o enteado, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). No cenário, Michelle empregou uma série de símbolos e, no discurso, mobilizou um repertório que une religião à ideologia conservadora.

Por vezes, o cristianismo aparecia em um tom biblicista, com metáforas como a contradição entre luz e sombras. Em outros momentos, a religião surgiu com a transparência defendida. Alguns exemplos de suas frases foram: “Não carrego rancor. Eu entrego tudo nas mãos de Deus”; “Perdão é libertação, não é obrigação”; “Meu futuro político está nas mãos de Deus”; e “O meu Deus é o caminho, a verdade e a vida”. Em sua trajetória política, Michelle se notabilizou pelo diálogo mantido com os segmentos evangélicos.

Segundo aliados, a ex-primeira-dama decidiu publicar o vídeo para se defender de ataques coordenados e informações falsas. Durante a gravação, ela relata uma ligação telefônica em que teria sido desrespeitada e maltratada pelo filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Michelle afirmou que Flávio foi muito ríspido. O telefonema ocorreu em um contexto de disputas do bolsonarismo no Ceará.

Michelle era contra a aliança do PL com Ciro Gomes (PSDB), a quem credita a inelegibilidade de seu marido. A ex-primeira-dama defendia o nome do senador Eduardo Girão (Novo) para disputar o governo do Estado. A candidatura ao Senado pelo Ceará também é um ponto sensível. Michelle quer uma vaga para Priscila Costa, vice-presidente nacional do PL, e o diretório do partido no Estado prefere lançar o nome do deputado estadual Alcides Fernandes (PL-CE).

Também nas redes sociais, Flávio pediu desculpas à madrasta e afirmou que não teve a intenção de ofendê-la. Disse ainda que, sendo casado há 16 anos e pai de duas filhas, nunca desrespeitou uma mulher na vida. No discurso da ex-primeira-dama, chamou a atenção as dezenas de vezes em que ela falou “meu marido”, o pronome possessivo justaposto ao substantivo. A menção a Bolsonaro admitia uma variação: “meu galego”, um regionalismo que faz sucesso entre os apoiadores.

A estratégia de Michelle não se apoiou somente no discurso. A luz é irradiada lateralmente, de modo a atribuir uma tez serena à personagem da gravação. Em momentos específicos, a câmera aproximava-se do rosto de Michelle, enfatizando o discurso. A ação da ex-primeira-dama também esteve no cenário escolhido, com símbolos destacados no vídeo.

A estrela de Davi, emblema mais importante do judaísmo, representa o Escudo de Davi e a aliança entre Deus e o povo de Israel. Ao incluir o símbolo em cima de um livro, a ex-primeira-dama ressalta o seu filossemitismo. Ao lado da estrela, surge a réplica de uma mão fazendo o “gesto do chifrinho”. Na Libras, o gesto significa “eu te amo”. Ao se tornar primeira-dama, Michelle se notabilizou por defender a inclusão das pessoas com deficiência.

Em dado momento do vídeo, Michelle celebra os feitos do PL Mulher, do qual é presidente. Em uma infografia, o mapa do Brasil aparece pintado de rosa, expondo a capilaridade do setor. Logo acima do mapa, os gestos de Michelle se articulam ao redor de uma caneta Bic, do tipo esferográfica e azul. Trata-se de uma menção ao ex-presidente que, em seu mandato, usava o objeto em eventos oficiais para sugerir simplicidade.

Ao fundo, estão dispostos na parede uma série de honrarias recebidas pela ex-primeira-dama ao longo dos últimos anos. O cenário atribui autoridade a quem está discursando. A estratégia política também se refletiu no vestuário. A camisa usada por Michelle tinha bordados com os Frutos do Espírito, encontrados no Livro de Gálatas: “mansidão”, “alegria” e “domínio próprio”. Desse modo, Michelle reafirmou sua identidade cristã.

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Cristina Leroy Silva, autora do portal
Cristina Leroy Silva

Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados

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