quarta-feira, agosto 19

A imagem que define esta Copa do Mundo não está apenas dentro das quatro linhas, mas no abismo de postura entre duas estrelas. De um lado, Lionel Messi conduzindo a Argentina a uma semifinal histórica; de outro, o maior ídolo brasileiro da última década curtindo mesas de pôquer nos Estados Unidos.

É esse contraste incômodo que emoldura o clube exclusivo que se formou no topo do torneio: pela primeira vez na história, teremos quatro campeões mundiais nas semifinais. França e Espanha de um lado, Inglaterra e Argentina do outro. Dois confrontos onde o Brasil poderia estar — e só não está por nossa própria incapacidade.

Para entender o tamanho do nosso vazio, basta olhar para a classificação inglesa. A Inglaterra eliminou a dura e fisicamente impositiva seleção da Noruega — um adversário que nos castigou severamente em campo. Diante do mesmo perigo, os ingleses souberam impor autoridade. Não se curvaram ao vigor físico rival; ao contrário, buscaram uma virada sob o comando de Bellingham.

O jovem craque assumiu as rédeas e foi o dono absoluto do jogo. Chamou para si a responsabilidade que o protagonismo exige. E foi exatamente isso que faltou ao Brasil. Enquanto assistíamos a um pragmatismo de 34% de posse de bola na nossa despedida, a Inglaterra mostrava como se comporta um gigante. Poderíamos estar ali, prontos para esse embate, sem alterar o roteiro dos quatro campeões na semifinal. Mas faltou bola, faltou alma.

Do outro lado da chave, a Argentina caminha sob uma dinâmica curiosa. Há quem aponte favorecimentos em decisões de arbitragem, e o próprio presidente da Fifa, Gianni Infantino, não faz muita questão de disfarçar o entusiasmo, vibrando na arquibancada a cada gol de Messi.

Cenário armado? Longe disso. É ingenuidade acreditar em uma orquestração de bastidores para beneficiar os portenhos; em um torneio desse porte, com árbitros do mundo inteiro, tal comando seria impossível de sustentar. A verdade é que a Argentina conta com uma dose de acaso: até agora, não cruzou com nenhum adversário do top 10 do ranking mundial. Se o caminho foi facilitado pelas circunstâncias, eles souberam aproveitar.

O que permanece, no fim das contas, é uma incômoda dor de cotovelo. É ver o maior campeão de todos os tempos, o único com essa bagagem histórica no peito, assistindo à festa pela televisão.

A ferida arde ainda mais quando confrontamos os espelhos desta geração. De um lado, vemos Lionel Messi, aos 40 anos, carregando a sua seleção nas costas rumo a mais uma semifinal de Copa do Mundo. Do outro, quase no mesmo instante, o nosso maior ídolo da última década escolhe dar adeus aos gramados mundiais enquanto exibe suas fichas em um campeonato de pôquer em Miami. É o retrato do compromisso de quem faz história contra o descompromisso de quem preferiu o entretenimento.

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Cristina Leroy Silva, autora do portal
Cristina Leroy Silva

Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados

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