terça-feira, agosto 18

A Justiça italiana negou a extradição da ex-deputada federal Carla Zambelli, impondo um novo revés ao ministro Alexandre de Moraes e ampliando as críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF). A decisão foi tomada por juízes de última instância do país europeu, que questionaram o papel do ministro no caso da invasão do sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), pelo qual Zambelli foi condenada.

Um documento obtido pela Folha cita “múltiplos elementos que levam a duvidar da imparcialidade, sob o aspecto objetivo, do tribunal”. Na decisão, os italianos apontaram uma dupla função assumida por Moraes, que é membro da Primeira Turma, colegiado que julgou a ex-deputada, e também foi vítima do crime atribuído a ela. Zambelli foi condenada por agir para emitir um mandado de prisão falso contra o ministro.

Especialistas consultados pela Folha afirmam que a medida reflete a estrutura do Judiciário brasileiro e pode servir de argumento para críticos e opositores do tribunal. A cientista política Marjorie Marona, da Unirio, disse que a negativa italiana ocorre em um contexto de pressões contra Moraes, incluindo ataques do bolsonarismo, pedidos de impeachment no Senado e sanções dos Estados Unidos. “Quem levanta dúvida sobre a imparcialidade do ministro ou da corte não é um ator político diretamente interessado. É uma corte de cassação de uma democracia consolidada”, afirmou Marona.

No ano passado, a Justiça da Espanha também negou um pedido de extradição do Brasil no caso do blogueiro Oswaldo Eustáquio Filho. Em 2024, os Estados Unidos disseram que não extraditariam o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos. Neste ano, a Argentina concedeu refúgio a um foragido da Justiça envolvido nos atos de 8 de janeiro.

O presidente do STF, ministro Edson Fachin, afirmou em nota que o processo contra Zambelli “transcorreu em estrita observância à Constituição, ao devido processo legal, ao contraditório, à ampla defesa e aos compromissos internacionais assumidos pelo Estado brasileiro”. O professor de direito penal Antônio José Teixeira Martins, da UFRJ e da Uerj, disse que parte do problema é o arranjo institucional brasileiro, que faz o STF acumular competências criminais e julgar ataques dirigidos aos próprios ministros.

A professora Ana Laura Barbosa, da ESPM, avaliou que o caso de Zambelli atingiu o Judiciário como instituição, e não a figura do ministro. Ela considera que a decisão italiana se baseia em premissas equivocadas, mas acredita que o desfecho pode reforçar ataques ao STF por setores da extrema direita. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro criticou a corte, escrevendo em rede social: “Moraes foi vítima e julgador ao mesmo tempo”.

A corte italiana ainda vai analisar um segundo pedido de extradição de Zambelli, relacionado à condenação por sacar uma arma de fogo e apontar para um homem na véspera do segundo turno das eleições de 2022.

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Cristina Leroy Silva, autora do portal
Cristina Leroy Silva

Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados

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