quinta-feira, junho 4

Um ônibus de linha que saiu de Foz do Iguaçu (PR) com destino a Florianópolis foi escoltado pela Receita Federal até a sede do órgão após uma denúncia sobre produtos contrabandeados a bordo, incluindo canetas emagrecedoras. Após duas horas de buscas, o veículo seguiu viagem, mas com menos bagagens. Foram apreendidas mercadorias irregulares avaliadas em mais de R$ 300 mil, além de dezenas de ampolas de emagrecedores paraguaios à base de tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro.

Uma passageira, moradora de Foz, disse à polícia que os eletrônicos que levava não eram seus, mas sim de quem a contratou. Essa prática é comum nos ônibus que chegam à região da tríplice fronteira para compras no Paraguai. As chamadas “mulas do contrabando” recebem valores que variam conforme a carga e a eficiência em driblar a fiscalização. Uma mula experiente recebe pelo menos R$ 500 para ir ao Paraguai e voltar com a mercadoria, valor que pode aumentar conforme o risco.

Viajantes envolvidos em grandes apreensões de canetas emagrecedoras têm sido indiciados por crime contra a saúde pública e contrabando. A condenação por crime contra a saúde pública pode levar a uma pena de 10 a 15 anos de prisão, enquanto o contrabando prevê reclusão de 2 a 5 anos. O descaminho, que é escapar do pagamento de imposto, tem pena de 1 a 4 anos.

O superintendente da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no Paraná, Fernando César Oliveira, alertou para os riscos dos medicamentos. “Além de não saber a procedência, há o risco de ser um medicamento falsificado. O transporte clandestino é precário, sem refrigeração adequada. Pode perder eficácia ou se tornar tóxico”, afirmou. Ele destacou que a pena para crime à saúde pública é mais grave que a para tráfico de drogas.

Embora proibidos no Brasil, esses medicamentos são fabricados por laboratórios paraguaios e registrados na autoridade sanitária do país vizinho, a Dinavisa. A fabricante do Mounjaro, Eli Lilly, informou que o medicamento exige controle rigoroso de temperatura em toda a cadeia de armazenamento, transporte e manuseio. A empresa alertou que produtos fora dos canais autorizados não têm garantia de qualidade, expondo os pacientes a riscos.

Migração do contrabando

Oliveira afirmou que há uma migração das mulas do contrabando, que estão deixando de transportar cigarros eletrônicos para levar canetas emagrecedoras, por ocuparem menos espaço e serem mais lucrativas. “Há o contrabandista que leva pequenas quantidades escondidas no corpo e o que leva em compartimentos ocultos de veículos, próximos ao motor, com altas temperaturas. Isso submete o produto a um transporte inadequado que pode torná-lo perigoso”, disse.

Dados da PRF mostram que o Paraná liderou no ano passado o ranking de apreensões de medicamentos nas rodovias federais. Das 68.631 unidades listadas, 22.975 (33,5%) foram apreendidas em estradas paranaenses, seguidas por São Paulo (17.888) e Goiás (13.731).

Uma das mulas, que teve três desktops apreendidos avaliados em US$ 6.450 (cerca de R$ 32.250), relatou que, em viagem anterior, seu “patrão” havia perdido R$ 140 mil. Além dos R$ 500 pelo transporte, ela recebeu R$ 150 para alimentação. Outra passageira, que viaja duas vezes por semana ao Paraguai, disse receber R$ 400 por deslocamento e afirmou que os R$ 3.200 mensais superam “qualquer emprego CLT, com menos trabalho”.

Em uma operação na BR-277, em Santa Terezinha de Itaipu (PR), um SUV foi revistado. Após a vistoria inicial não encontrar nada, os agentes detectaram inconsistências na entrevista com o motorista e levaram o veículo para análise mais rigorosa. Depois de mais de duas horas, encontraram 2.210 unidades de medicamentos emagrecedores escondidos em um fundo falso, descoberto após a remoção das rodas traseiras e do revestimento. A carga foi avaliada inicialmente em R$ 1 milhão, depois corrigida para R$ 420,9 mil. Também foram encontrados peptídeos e ampolas de retatrutida, medicamento em fase de estudo. O motorista foi preso em flagrante.

Dias depois, outra fiscalização encontrou R$ 250 mil em canetas paraguaias escondidas em outro veículo, em compartimento semelhante. O motorista afirmou que receberia 10% do valor transportado como pagamento. Oliveira, da PRF, comentou: “São cargas valiosas, com lucro alto. Ocupam pouco espaço e são de fácil revenda. Enquanto for fácil comprar no Paraguai e vender no Brasil, a gente fica no meio do caminho, enxugando gelo.”

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Cristina Leroy Silva

Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados