quarta-feira, agosto 19

Há treinadores que vencem porque estudam mais. Outros porque têm grandes jogadores. E há Carlo Ancelotti, um técnico que parece enxergar partidas que ninguém mais está vendo. Ao longo da carreira, suas decisões frequentemente desafiam o senso comum, provocam críticas imediatas e, poucos minutos depois, transformam-se em genialidade. A recente classificação do Brasil foi apenas mais um capítulo de uma história que se repete há décadas.

A reação do presidente Lula depois da vitória sobre o Japão ilustra perfeitamente esse fenômeno. Ele admitiu que também teria tirado Casemiro quando o volante fazia um primeiro tempo ruim. Ancelotti pensou diferente. Manteve o jogador em campo, viu Casemiro marcar o gol de empate e, mais tarde, apostou em Gabriel Martinelli, autor do gol da vitória nos acréscimos.

O curioso é que Lula, naquele momento, não falava apenas por ele. Falava por uma espécie de inconsciente coletivo do futebol brasileiro. Em dias de Seleção, o país vira uma imensa comissão técnica. São mais de 200 milhões de técnicos de ocasião, todos convictos de que sabem exatamente quem deve sair, quem deve entrar e em que minuto a mudança precisa acontecer.

Ancelotti, porém, parece funcionar em outra frequência. Ele não treina para agradar a arquibancada, as redes sociais ou a pressa do palpite. Sua marca é a calma. É a leitura silenciosa de quem entende que uma partida de futebol muda não apenas com substituições, mas também com confiança, paciência e controle emocional.

Foi assim também em noites inesquecíveis no Real Madrid. Na semifinal da Liga dos Campeões de 2022, contra o Manchester City, o time espanhol parecia eliminado. Havia perdido o primeiro jogo por 4 a 3 e, no Santiago Bernabéu, voltou a sofrer um gol na etapa final. A classificação inglesa parecia encaminhada até os minutos finais.

Então apareceu o brasileiro Rodrygo. Aos 45 e aos 46 minutos do segundo tempo, o brasileiro marcou duas vezes, levou o confronto para a prorrogação e abriu caminho para Benzema decretar uma das viradas mais impressionantes da história recente da Champions. Não foi apenas uma reação. Foi mais um daqueles episódios em que o time de Ancelotti parecia se recusar a aceitar o fim do jogo.

Dois anos depois, o roteiro voltou a se repetir. Em maio de 2024, também pela semifinal da Liga dos Campeões, o Real Madrid perdia para o Bayern de Munique até os 43 minutos do segundo tempo. O Bayern estava com a vaga nas mãos. Mas Ancelotti tinha Joselu no banco e uma última carta para jogar.

Joselu entrou para virar herói. Marcou aos 43 e aos 46 minutos, virou o jogo e levou o Real Madrid a mais uma final europeia. Era outro personagem improvável, outro gol no limite do tempo, outra decisão que parecia contrariar a lógica até se transformar em história.

É claro que há método nisso. Ancelotti não é um aventureiro iluminado pelo acaso. Ele conhece profundamente o jogo, sabe administrar grupos, entende o peso psicológico de cada momento e tem uma virtude rara em técnicos pressionados: não se desespera quando todo mundo ao redor já perdeu a calma.

Mas também é verdade que, depois de tantas cenas parecidas, fica difícil não enxergar uma camada de mistério. Por que tantos jogadores improváveis decidem sob seu comando? Por que tantas viradas nascem quando a eliminação parece inevitável? Por que ele insiste onde quase todos mudariam?

Talvez seja experiência. Talvez seja intuição. Talvez seja apenas a grande sabedoria de quem sabe que o futebol não cabe inteiro nas planilhas, nas estatísticas e nos palpites apressados. Ou talvez Ancelotti carregue consigo aquele ingrediente que os grandes vencedores têm e que ninguém consegue explicar direito.

Na dúvida, o futebol escolheu uma palavra mais simples: bruxaria.

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Cristina Leroy Silva, autora do portal
Cristina Leroy Silva

Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados

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