sábado, abril 18

Na virada do ano, o ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), estava no resort Tayayá, no Paraná, para a festa de Réveillon de 2026.

Relator do caso Master na época, o ministro tinha marcado para o dia 30 de dezembro uma acareação entre o dono do banco, Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB (Banco de Brasília), Paulo Henrique Costa, e o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino. Do Tayayá, ele acompanhou as tratativas para os depoimentos.

O ambiente em Brasília estava nervoso, incomum para este período do ano, diante dos desdobramentos diários do escândalo Master e do estranhamento geral com a decisão inusual do relator de convocar uma acareação antes que investigados e testemunhas tivessem prestado depoimentos individuais.

Vorcaro havia sido preso, em novembro, no dia da liquidação do Master, mas solto 10 dias depois. Com o uso de tornozeleira eletrônica, passou a comandar, do seu apartamento em São Paulo, uma ofensiva contra o Banco Central e a Polícia Federal, além de pressão a ministros da Corte que tinham ou tiveram alguma relação com ele.

Para a empreitada, tinha o apoio de um exército de escritórios de advocacia contratados para a sua defesa -todos muito bem pagos por meio de contratos milionários de prestação de serviços.

A investida envolveu também uma movimentação no TCU (Tribunal de Contas da União) e ataques coordenados com pelo menos 46 perfis em redes sociais fazendo um bombardeio digital contra o BC, bancos e investigadores no caso Master.

A prática já vinha sendo observada durante o processo de análise pelo órgão regulador da venda do Master para o BRB, mas cresceu em meio à guerra jurídica, e levou a PF a abrir um inquérito para investigar os envolvidos.

A intenção da ação era clara para os investigadores: condenar a condução feita pelo BC, que vetou a compra do Master pelo BRB; trocar o liquidante; impedir a venda dos bens bloqueados; e conseguir a nulidade do processo de liquidação do banco para diminuir o risco de Vorcaro ser condenado, de acordo com relatos colhidos nos últimos dois meses pela reportagem da Folha com pessoas envolvidas diretamente nos episódios.

A Tensão no TCU

Assim como Toffoli, o relator do caso no TCU, o ministro Jhonatan de Jesus, também decretou sigilo máximo ao processo e passou a pressionar por uma inspeção no BC. Recebeu apoio do presidente do TCU, Vital do Rêgo, que defendeu a auditoria. Outros ministros da corte demonstravam em grupos reservados de WhatsApp, no entanto, desconforto com a movimentação do relator.

O decano do Tribunal, Walton Alencar, era um dos mais ativos nas ligações para os colegas. Se o relator concedesse uma medida cautelar a favor de Vorcaro -o tribunal estava em recesso de fim de ano- uma sessão extraordinária deveria ser convocada para barrar o ato.

Ligado a lideranças dos partidos do centrão, com relações conhecidas com Vorcaro, Jhonatan é hoje alvo de um pedido do subprocurador-geral do MP de Contas, Lucas Furtado, para que a sua conduta no caso seja apurada.

“As ramificações e interferências indevidas do Banco Master levam a desconfiar da própria sombra. Há muito dinheiro envolvido. Qualquer preocupação ou desconfiança pode ser justificada”, diz Furtado.

Procurada nesta sexta-feira (17), a assessoria do TCU respondeu que já se manifestou sobre o tema em nota do dia 5 de janeiro, que afirma que o BC está submetido à fiscalização da Corte de Contas. A defesa de Vorcaro disse que não iria se manifestar. O BC não respondeu ao pedido de informações. Já o ministro Jhonatan negou que tenha atendido pedido de Vorcaro para abrir uma inspeção.

O relator diz que aguarda relatório do BC sobre a sindicância aberta contra dois ex-chefes da área de fiscalização do BC, Paulo Sérgio de Souza e Belline Santana, alvos da operação Compliance Zero, para levar o processo ao plenário. A área técnica deu parecer favorável ao BC.

“A própria unidade técnica disse que as decisões do banco estavam normais. Eu faço a crítica: como é que estava normal com dois diretores envolvidos e vários ofícios feitos por diretores que estavam lá? E eu é que estou envolvido?”, questiona.

Reação do Mercado Financeiro

Ao mesmo tempo em que crescia a pressão do TCU sobre o BC, a indústria financeira decidiu reforçar seu apoio ao órgão regulador numa carta aberta. A união, considerada inédita pelos participantes do mercado, reuniu associações de cinco segmentos do setor e teve papel importante para frear a ofensiva.

A leitura foi a de que estava em curso uma operação para constranger o BC, o que poderia desqualificar a decisão da autoridade de liquidar o Master, com risco de repercussões no futuro. CEOs de grandes bancos, antes críticos à atuação do BC no processo do Master, dessa vez se uniram para defender a independência do regulador ante o perigo de o TCU reverter a decisão da liquidação.

Conexões com o STF e Novas Revelações

Enquanto a temperatura subia em Brasília, pipocaram notícias de que Vorcaro estaria disposto a falar e que teria mantido nos seus celulares muitas mensagens e vídeos de amigos, entre eles autoridades políticas e líderes do Centrão, como mais tarde mostraria o vazamento de áudios e conversas privadas de Vorcaro com sua ex-noiva, a influenciadora Martha Graeff.

Na acareação ao STF, o próprio Vorcaro no seu depoimento passou o seu recado ao ser questionado sobre quais políticos frequentavam a sua casa: “Tenho alguns amigos de todos os Poderes”. Já era conhecido o contrato milionário do escritório da esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, Viviane Barci, revelado pela jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo.

Documentos da Receita Federal mostrariam mais tarde que o escritório de Viviane recebeu R$ 80,2 milhões em dois anos do Master. Em nota, a banca respondeu que “não confirma essas informações incorretas e vazadas ilicitamente, lembrando que todos os dados fiscais são sigilosos.”

Naquele momento não era pública ainda a ligação de familiares de Toffoli com Vorcaro, revelada pela Folha de S. Paulo no dia 11 de janeiro. A reportagem representou uma virada na ofensiva. Duas empresas ligadas a parentes de Toffoli tiveram como sócio um fundo de investimentos conectado à teia usada pelo Master em fraudes investigadas por autoridades.

À época, a defesa de Vorcaro negou qualquer irregularidade ou envolvimento do Master com fraudes, fundos ilícitos ou operações destinadas a beneficiar terceiros. Toffoli ficou em silêncio.

O ministro só foi esclarecer a sua relação com o Tayayá e o fundo ligado ao Master em fevereiro, ao reconhecer que recebeu dinheiro da empresa Maridt, da qual era sócio com seus irmãos.

Mudança de Relatoria e Novas Prisões

No dia 12 de fevereiro, ele deixou a relatoria das investigações após semanas resistindo a se afastar do caso. A decisão foi acertada com outros ministros depois que a PF apresentou evidências contra Toffoli em relatório entregue pessoalmente pelo diretor-geral do órgão, Andrei Rodrigues, e ao presidente do STF, Edson Fachin. O ministro André Mendonça assumiu a relatoria.

Esse período foi descrito por um dos investigadores como um dos mais tensos e sensíveis de todo o escândalo Master pela peculiaridade do caso e os riscos de abalo na República. Policiais tinham feito achados contra ministro do Supremo em atividade. Toffoli e Moraes não são hoje investigados pela PF, que não tem atribuição para isso.

Para investigadores, os trabalhos de apuração foram prejudicados durante o período em que Toffoli foi responsável pelo processo e designou peritos para atuar na análise das provas colhidas.

Após a mudança de relatoria, Vorcaro foi preso novamente na 3ª fase da operação, deflagrada em março de 2026, acusado de participação em organização criminosa, lavagem de dinheiro e obstrução de investigações.

A PF encontrou no celular mensagens apontando que o ex-banqueiro mantinha uma milícia privada chamada “A Turma” com o objetivo de coagir e ameaçar seus desafetos. Ele segue preso.

O celular de Vorcaro revelou ainda que ele trocou mensagens com Alexandre de Moraes no dia da primeira prisão dele, em novembro de 2025. O ministro do STF não negou o contato, mas rejeitou ter falado sobre investigações contra o ex-banqueiro.

Investigação em Andamento

A investigação conduzida pela PF ainda está em estágio inicial, caminhando para uma fase intermediária, segundo integrantes do órgão. O avanço depende da análise de um volume massivo de dados extraídos de celulares apreendidos, que ainda passam por etapas de extração, organização e cruzamento técnico.

Apenas um dos aparelhos atribuídos a Vorcaro concentra cerca de 400 gigabytes de informações em análise, e ao menos outros sete celulares ligados a ele já foram apreendidos. Além disso, há dispositivos de familiares e de funcionários sendo periciados, o que amplia as frentes de apuração.

Cada nova fase pode abrir novas linhas investigativas, o que torna inviável, neste momento, prever quando o caso Master será concluído.

A 4ª fase da operação ocorreu nesta semana com a prisão do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, acusado de ter negociado com o Vorcaro o recebimento de seis imóveis em troca de operações favoráveis para o Master no banco do governo do Distrito Federal.

Para uma pessoa envolvida no caso, a ofensiva de Vorcaro para abafar o caso só não foi bem-sucedida porque o Master era um elefante grande demais pra caber embaixo de um tapete.

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Cristina Leroy Silva

Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados