A discussão sobre os riscos do consumo excessivo de ultraprocessados está em destaque, especialmente após a divulgação recente de pesquisas importantes. Essas análises, coordenadas pelo nutricionista brasileiro Carlos Monteiro, mostram que o aumento na ingestão de ultraprocessados está ligado ao crescimento de doenças crônicas, incluindo câncer.
Os ultraprocessados são alimentos que contêm muitos aditivos, como corantes e aromatizantes artificiais, além de altas quantidades de açúcar, gordura e sal. Esses produtos costumam ter pouca ou nenhuma presença de ingredientes naturais, de origem animal ou vegetal.
Monteiro, da Universidade de São Paulo (USP), observa que o aumento do consumo de ultraprocessados está mudando o padrão alimentar global. Ele ressalta que grandes empresas buscam altos lucros e, frequentemente, tentam barrar políticas públicas que poderiam estimular escolhas alimentares mais saudáveis.
Em um estudo recente, foi mostrado que dietas ricas em ultraprocessados estão associadas a um maior risco de obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares. Uma das pesquisas citadas, conduzida pelo JAMA Network, revelou que mulheres que consomem grandes quantidades desses produtos têm um risco maior de desenvolver câncer de intestino.
O estudo realizado pelo Mass General Brigham Cancer Institute, nos Estados Unidos, identificou que mulheres com menos de 50 anos que consumiam de nove a dez porções diárias de ultraprocessados tinham um risco 45% maior de desenvolver pólipos colorretais. Esses pólipos podem se transformar em tumores e foram comparados com mulheres que ingeriam menos de três porções diárias.
Os cientistas envolvidos nas pesquisas apontam que o vínculo entre ultraprocessados e doenças se deve à alta densidade calórica, ao uso excessivo de aditivos e à formulação dos produtos, que é feita para incentivar o consumo em excesso. Muitas vezes, esses alimentos contêm substâncias que aumentam o apetite, fazendo com que a pessoa consuma mais do que o indicado nos rótulos.
### Medidas para Limitar os Ultraprocessados
Carlos Monteiro, que criou o conceito de ultraprocessados, defende que a quantidade de evidências sobre os impactos desses alimentos é suficiente para justificar uma regulamentação mais rigorosa. Entre as propostas, estão rótulos mais claros, que detalhem os ingredientes utilizados, e a limitação de anúncios voltados para o público infantil.
Os pesquisadores também sugerem a criação de impostos sobre produtos ultraprocessados. Esse imposto poderia ser utilizado para financiar subsídios que incentivem o consumo de alimentos frescos e saudáveis. Além disso, é importante fortalecer programas públicos de alimentação, como a merenda escolar, onde o uso de produtos industrializados deve ser reduzido.
Outra recomendação é a adoção de novos rótulos que indiquem claramente a presença de ingredientes característicos dos ultraprocessados, como corantes e aromatizantes. Além disso, deve haver restrições quanto à oferta desses produtos em espaços públicos, especialmente em escolas e hospitais.
### Pressão Internacional e Próximos Passos
Os estudos também destacam a necessidade de proteger as políticas de saúde contra a influência de empresas. As grandes fabricantes de ultraprocessados frequentemente tentam pressionar órgãos reguladores em diferentes países, dificultando a implementação de rótulos mais informativos e limitando o uso de aditivos.
As oito maiores empresas do setor, incluindo Nestlé, PepsiCo, Unilever e Coca-Cola, movimentam juntas mais de um trilhão de dólares anualmente. Esse valor é superior ao PIB de toda a região Sudeste do Brasil.
Os pesquisadores afirmam que a situação atual é semelhante à que foi vivida nas políticas de controle do tabaco. Eles defendem uma ação conjunta entre os países para enfrentar a influência das grandes corporações e proteger a saúde pública.
Para resolver esse problema, é fundamental que os governos adotem medidas claras e firmes. Isso inclui a criação de indicadores de ultraprocessados nos rótulos, limites para a comercialização e a implementação de impostos que ajudem a financiar o acesso a alimentos mais saudáveis. Essa abordagem seria um passo importante para promover uma alimentação melhor e mais equilibrada.
Além de regulamentações, é necessário promover a conscientização da população sobre os riscos associados ao consumo excessivo de ultraprocessados. Campanhas de informação podem ser uma ferramenta poderosa para educar as pessoas sobre a importância de escolhas alimentares saudáveis, destacando os benefícios de consumir alimentos frescos.
É importante entender que a alimentação saudável não é apenas uma questão de gosto, mas também de saúde e qualidade de vida. A longo prazo, fazer escolhas alimentares conscientes pode ajudar na prevenção de diversas doenças e melhorar a saúde geral da população.
Em resumo, a crescente preocupação em torno do consumo de ultraprocessados revela um cenário que demanda atenção. O envolvimento de governos, empresas e da sociedade é fundamental para criar um ambiente que favoreça a saúde e bem-estar de todos. A promulgação de políticas que incentivam o consumo de alimentos saudáveis, aliadas à educação e conscientização da população, poderá resultar em uma sociedade mais saudável e com menos riscos associados ao consumo de ultraprocessados.